Antes de começar, aqui vão dois avisos aos leitores deste artigo.

Aviso 1: ALERTA DE SPOILERS SOBRE A PRIMEIRA PARTE DA TEMPORADA 5 

Aviso 2: este texto foi escrito por uma verdadeira fã da série, mas, não é porque gostamos de alguma coisa que não percebemos seus erros, não é mesmo?

Sendo assim, anúncios dados, vamos ao artigo.

Se você não gosta de La Casa de Papel, você está vivendo errado. Ok, brincadeira… você pode não ter sido fisgado pelo tom novelesco e exagerado da série. No entanto, uma coisa não pode ser colocada de lado: a série espanhola da Netflix se tornou um dos maiores sucessos da plataforma, principalmente aqui no Brasil.

Quem não viu um grupo fantasiado com roupas vermelhas e máscaras do pintor Salvador Dalí em blocos de Carnaval? Ou até quem não ficou com o funk “Só quer vrau” na cabeça e se divertiu assistindo ao clipe sátira da produção? Eu mesma tinha um corte de cabelo chanel com franja e, automaticamente, “virei a Tóquio”, a ponto de que pessoas me paravam na rua para falar que eu lembrava a personagem (é isso não foi uma, nem duas, nem três vezes). Se isso não é sucesso, não saberia descrever de outra forma.

La Casa de Papel ganhou o nosso coração por vários motivos. Os ladrões são carismáticos e pessoas reais que erram – e muito – mas se superam em diversos momentos. As reviravoltas são eletrizantes, tanto que é impossível parar de assistir enquanto não terminamos a temporada. Falamos sobre dilemas sociais, pessoas que querem ferir o sistema e não outras pessoas. Temos personagens que representam minorias e tudo isso, com bastante humor e ação.

Contudo, se estou escrevendo esse artigo, é porque as coisas não são tão perfeitas como parecem. Existe um grupo que tem ficado mais abandonado a cada temporada: as personagens femininas. E, para explicar melhor, vamos analisar a participação de cada mulher importante para o enredo da série:

Lisboa / Raquel (Itziar Ituño)

A inspetora encarregada pela operação contra os ladrões logo na primeira temporada, surpreendeu a todos com suas manobras contra o ardiloso Professor. Lisboa, que, até então, era “somente” Raquel, havia ultrapassado um relacionamento abusivo e virado a chefe da família. 

Uma personagem que teria tudo para ser o exemplo de várias mulheres, mas em cinco dias, ela se apaixona pelo líder dos assaltantes e decide fugir com ele para outro país, levando a filha e a mãe doente. 

Ao longo das temporadas, a importância de Raquel se apaga, a ponto de esquecermos de todas as ilustres jogadas mentais que a inspetora teve na primeira parte da trama e a tratarmos apenas como “a mulher do Professor”. 

Nesta última temporada, a personagem quase não possui tempo de tela e, os poucos momentos de reflexão que apresenta são infinitamente inferiores aos que nos fizeram acreditar que ela era capaz. Inclusive, você sabe o que aconteceu com a família da Raquel? Não, né? Porque, aparentemente, a única coisa importante para sua vida é o assalto idealizado pelo Professor.

Estocolmo / Mónica (Esther Acebo)

Aqui vai o prêmio para a personagem feminina mais insuportável da série. A ex-secretária, grávida do chefe (um narcisista clássico) se apaixona por seu sequestrador. A série até satiriza a Síndrome de Estocolmo, porém, mais uma vez, vemos uma mulher que abandonou sua vida para seguir o amado.

E a participação de Mónica não para de decepcionar. Nos poucos momentos em que achamos que a personagem teria uma transformação e tomar uma posição importante dentro da história, ela volta a se apresentar como uma mulher frágil, com crises de ciúmes em momentos inoportunos e que termina sendo um fardo para o resto da equipe. 

(Parênteses aqui para Julia, a prima trans de Denver, que aparece basicamente para atrapalhar a concentração do assaltante nas horas mais complicadas e fazê-lo ficar confuso com relação ao amor que sente por sua esposa. Ninguém aguenta mais personagens femininas alfinetando os olhos umas das outras por causa de homens. Além disso, a ideia de adicionar uma mulher trans no elenco seria excelente, se a atriz fosse, pelo menos, uma mulher trans).

Alicia Sierra (Najwa Nimri)

Ok, talvez essa seja a personagem feminina mais insuportável da história, admito que estou em dúvida. Isso porque, a nova inspetora da polícia não tem nenhum tipo de desenvolvimento, ela é, simplesmente, má. 

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Ela é fria, calculista e sem sentimentos. Tortura sem se importar com a repercussão e muito menos com direitos humanos. Você pode até achar que Sierra é diferente dos clichês por ser uma mulher grávida que continua com os ares de comando da operação.

Porém, tirando a barriga de grávida, não há nada além de uma vilã de histórias infantis que deseja destruir a vida dos mocinhos e continuar com o posto de “mais bonita do reino”, ou “melhor inspetora da polícia”, nesse caso. Talvez, o nascimento da filha Victória nesta última temporada, faça com que suas ações sejam mais sensatas e não apenas para causar dor e incômodo a todos que estão a sua volta, mas estas são, literalmente, cenas para os próximos capítulos.

Nairóbi / Ágata (Alba Flores)

É com Nairóbi que o roteiro peca com mais brutalidade. Ela é uma rocha: a única assaltante que se mantém focada no objetivo do início ao fim, sem deixar que suas emoções e vontades pessoais afetem suas decisões. A personagem tomou o coração dos espectadores por sua curva dramática fora dos clichês e por frases icônicas como “Que comece o matriarcado”, quando ganha a disputa de poder com Berlim. Inicialmente, a motivação que a colocou dentro do assalto à Casa da Moeda Espanhola era ligada a seu filho, entretanto, ao fim da primeira temporada, descobrimos que ela não pretende mais procurar a criança. 

Seu desenvolvimento era o que mais dava gosto de acompanhar, inclusive seus arcos românticos eram os únicos que faziam sentido em toda a série, mas, é claro que os roteiristas preferiam apelar e matar a personagem de uma das formas mais violentas possíveis: indefesa, com um tiro na testa. A morte de Nairóbi foi o momento mais ofensivo de toda a produção. Foi uma quebra de ritmo desconfortável e que, no fim, não gerou grandes consequências para o desfecho da série.

Tóquio / Silene (Úrsula Corberó)

Tóquio é uma bomba-relógio, descontrolada, raivosa, um furacão, uma Maserati, impetuosa, imprevisível e todos os outros adjetivos que já foram utilizados para descrever mulheres fortes que não conseguem controlar seu temperamento. 

O arquétipo da protagonista habita uma linha tênue: sua agressividade e autossuficiência são atípicos do estereótipo de personagens femininas que poderiam passar de corajosas líderes para responsáveis por botar tudo a perder em questão de minutos.

No entanto, a personagem se destacava em momentos que não estamos acostumados a ver nas telas. Em geral, somos levados ao sentimento de pena para com esse tipo de mulher, mas não com Tóquio. Nem por um segundo duvidamos da sua determinação e os longos flashbacks que contam sua vida prévia ao assalto fazem com que possamos entender – e até aceitar – suas escolhas conturbadas. Inclusive, esse é um dos motivos de sentirmos tanta raiva da personagem em diversas sequências da série: queremos que ela nos surpreenda tendo atitudes mais racionais que, muitas vezes, não acontecem.

E, assim, é com Tóquio que temos a derrocada total das mulheres da série. Sem Nairóbi, sobrava à Tóquio, a missão de ser a única personagem feminina verdadeiramente elaborada que, inclusive, nos surpreendia a cada temporada com atitudes inesperadas e constante desenvolvimento.

E sim, “sobrava” no passado, porque assistimos à morte da personagem no último episódio da temporada. Por que ela morre? Por absolutamente nenhum motivo. Ou, talvez, porque seja um prazer do criador desenvolver as personagens femininas para, depois, matá-las. 

Esse tipo de prática é muito comum no mundo cinematográfico, principalmente quando falamos sobre personagens LGBTQIAP+ e leva o nome “Bury your gays”, ou “enterre seus gays” em tradução livre. Significa que essas personagens são mortas com uma frequência desproporcional e/ou sem justificativa. Muitas vezes isso acontece porque eles são vistos como mais dispensáveis no âmbito das narrativas ou porque os roteiristas querem terminar o enredo com um choque, para, assim, torná-lo memorável.

E pense bem: não é exatamente isso que La Casa de Papel fez com suas personagens principais? 

“Ah, Marcelle, mas o Moscou e o Berlim também morrem”. Sim, o roteiro também tirou a vida de personagens masculinos. Contudo, enquanto os dois continuam aparecendo em flashbacks durante todas as temporadas desde suas mortes na primeira parte da história (eu, sinceramente, não aguento mais as desculpas para colocarem o Berlim em cena), Nairóbi apareceu em um único momento. Além disso, falamos de um elenco formado principalmente por homens e que excluiu as únicas mulheres significativas. 

É triste ver que o encerramento da série não inclui um final feliz para suas personagens femininas principais. Aquelas que nos fizeram assistir às temporadas e torcer para que tivessem um futuro brilhante. Cada uma feliz, rodeada pela família e amor. 

E assim vemos mais uma produção que poderia ser um passo à frente para a representatividade feminina cair na mesmice que, infelizmente, continua dominando Hollywood e seus seguidores.

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Por Marcelle Souza

Marcelle Souza é redatora criativa do Café com Net, colaborando como a principal crítica de cinema da revista. Formada em cinema e jornalismo, seu ponto mais forte é comunicação e descoberta de tendências do mundo da arte.

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