Já faz um bom tempo que a discussão em torno da representatividade no cinema entrou na ordem do dia. Quando falamos sobre a imagem de mulheres reproduzidas na tela grande, em geral, o Teste de Bechdel é um dos primeiros termos mencionados.

Caso você seja homem e nunca tenha notado, as mulheres no cinema não são muito bem retratadas. Frequentemente, somos apresentadas como estereótipos e/ou objetos sexuais e/ou pessoas cujo único interesse existente é o romance (com o sexo oposto, é claro).

Nós, mulheres, ainda temos dificuldade em encontrar representações femininas dignas da realidade. Por isso, surgiu o Teste de Bechdel.

Mas o que é esse teste, afinal?

 

Teste de Bechdel - A Regra
Imagem: Girl Comics / Tradução: Café Métrica

Criado quase sem querer pela cartunista norte-americana Alison Bechdel na tirinha chamada A Regra, em 1985, o teste serve para analisar a profundidade das personagens femininas na indústria audiovisual.

Para ser aprovada, a obra precisa seguir três regras bem simples:

1. Deve ter pelo menos duas mulheres com nomes
2. Elas devem conversar uma com a outra
3. Essa conversa deve ser sobre alguma coisa que não seja um homem

Quando falamos desse teste, precisamos voltar no tempo e entrar em contato com suas verdadeiras raízes. Assim, chegaremos, inevitavelmente, no livro Um Teto Todo Seu, escrito por Virgínia Wolf e lançado em 1929.

A obra é o resultado de uma reflexão da autora sobre as condições sociais da mulher e isso influencia na produção literária feminina desde então.

Muita coisa mudou dos anos 20 até agora e parece que passar no Teste de Bechdel é externamente fácil, não é?

Pois bem… infelizmente, nem tanto assim. Por mais que, com o passar dos anos e, principalmente, com o avanço do movimento feminista, cada vez mais filmes tenham notas positivas no Teste de Bechdel, as obras aprovadas ainda estão longe de serem a maioria.

Dos 20 principais filmes indicados ao Oscar de 2020, por exemplo, apenas seis estariam na lista de aprovados, sendo eles Judy, O Escândalo, Jojo Rabbit, História de um Casamento, Adoráveis Mulheres e Parasita.

E notem um fato curioso: desses seis filmes, metade é protagonizada por mulheres. (Já já, vamos voltar a esse assunto!)

Mas é claro que a representação feminina nos filmes vai muito além de mulheres, com nomes, que conversam entre si e falam sobre algo que não seja um homem.

O mais importante não é excluir o sexo masculino das histórias, mas sim não transformá-lo no condutor da personagem feminina.

Teste de Bechdel - Frozen

Frozen, da Disney, é um ótimo modelo, principalmente por ser um longa tão conhecido. Elsa e Anna, as personagens principais, conversam, sim, sobre alguns homens que estão na trama, contudo, em momento algum, esse passa a ser o foco da história.

Mesmo sendo princesas que, em geral, são um clássico estereótipo deturpado de mulheres que passam a vida esperando por um “príncipe encantado para terem os sonhos realizados”, seus enredos estão ligados à fraternidade e deveres para com o povo do reino.

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Eis que chegamos no assunto que precisávamos voltar.

Em geral, quando o Teste de Bechdel é aprovado em um longa, estamos falando de filmes com mulheres como personagens principais.

No entanto, o objetivo não é que todas as obras do mundo tenham protagonistas femininas, mas sim que os dois gêneros sejam retratados de forma fidedigna, com a complexidade que cada um merece.

As mulheres estão cansadas de assistirem a filmes cujas personagens femininas existem apenas para brigar por outros homens.

Também estamos cansadas de sermos representadas como a única personagem forte no meio de vários homens. Até porque essa mulher, na verdade, está sendo masculinizada – ou sexualizada.

Existe uma enorme gama de assuntos femininos que podem ser explorados pelos conteúdos audiovisuais. Inclusive, vários que também contemplam os personagens masculinos.

Então, por que não vemos isso em tela?

Talvez porque o cinema ainda é uma área predominantemente de homens e os roteiristas/diretores terminam caindo no clichê de simplificar o pensamento feminino.

Talvez porque os produtores ainda tenham receio de investir em filmes mais realistas com medo de perder o público masculino.

Talvez porque a sociedade ainda não valorize a mulher.

Ou talvez por todos esses motivos e muitos outros que poderiam render vários artigos completos.

Mas, voltando ao Teste de Bechdel, também não podemos achar que a representação feminina é algo tão vazio que pode ser resumido em apenas três regras.

Até porque, existem obras que possuem mulheres verdadeiras, mas que, não necessariamente, são aprovados no teste.

Teste de Bechdel - Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios, filme de 2009 de Quentin Tarantino, apresenta duas personagens fortes e complexas, mas que nunca se encontram. Logo, o filme não passa na prova final, mas termina realizando mais que alguns longas com protagonistas femininas como Mulher Maravilha, por exemplo.

O Teste de Bechdel não é uma ferramenta para simplificar a representação feminina na tela, mas para mostrar que existe uma falha na grande mídia de listar mulheres reais.

Assim, podemos nos esforçar, seja como profissionais audiovisuais, seja como público, para provar o que realmente queremos ver no mundo do cinema: nós mesmos!

 

 

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Por Marcelle Souza

Marcelle Souza é redatora criativa do Café com Net, colaborando como a principal crítica de cinema da revista. Formada em cinema e jornalismo, seu ponto mais forte é comunicação e descoberta de tendências do mundo da arte.

3 comentários em “Como analisar a representatividade feminina no cinema?”
  1. uau.. é íncrivel como esse tipo de texto abre nossa mente para que possamos enxergar de fato como as coisas funcionam. Nunca tinha ouvido falar nessa regra e agora parei pra repensar alguns filmes que já vi.. e.. é real. Por ser uma coisa relativamente "simples" uma conversa entre duas mulheres sobre algum outro assunto.. é até dificil acreditar, sla.. e tipo, é assustador perceber que isso é real.

  2. Com certeza, é assustador! Fico muito feliz que tenha gostado do artigo…

    Falta muito para que nós, mulheres, possamos marcar nossa independência da figura masculina, seja ela um pai, um marido, um amigo, ou até um filho…

    Mas, seguimos na luta! Muitas figuras do audiovisual como Sofia Coppola, Claudia Llosa, Anna Muylaert já conseguem mostrar quem somos de verdade! 💪

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