Qual a maior indústria cinematográfica do mundo? Se você pensou em todos os filmes de heróis, efeitos especiais, premiações de Oscar, festas de gala e respondeu Hollywood, muito bem… você errou
O maior cinema do mundo vem da Índia, mais especificamente, de Bollywood!

Mas eu, como uma amante de cinema (inclusive formada na área), adoro procurar filmes alternativos a essas grandes produções. E sim, os filmes de Bollywood são MEGA PRODUÇÕES.

Por isso, neste artigo, vou falar um pouquinho sobre dois filmes bem diferentes de uma das maiores diretoras da Índia: Mira Nair.

Sua obra é perfeita para quem está cansado em ver mais do mesmo e tem curiosidade em aprender sobre a cultura indiana de uma forma mais realista, livre dos estereótipos criados pelo ocidente.

 

Monsoon Wedding, 2001

Monsoon Wedding - Café com Net

Monsoon Wedding é a história de uma típica família Punjabi se reunindo para comemorar o casamento da única filha. O enredo simples pode enganar os desavisados que esperam assistir a uma leve comédia indiana.

Com mais de trinta personagens, a diretora atribui a cada um deles, além de características previsíveis, camadas que revelam temas muito mais profundos como conflitos geracionais e sexuais, os papéis do masculino e do feminino, bem como as diferenças de casta.

A técnica de Nair é usar certas convenções de filmes de Bollywood claramente identificáveis para introduzir noções estereotipadas da cultura e tradições indianas e depois subvertê-las, aprimorando as questões e os personagens individualmente.

Aditi, a noiva, é uma jovem cuja beleza se encaixa perfeitamente na tradicional musa bollywoodiana. Embora ela concorde que seus pais escolham seu marido e, consequentemente, seu futuro, ela mantém um caso com um homem mais velho e casado.

Do outro lado, está Ria, sua prima solteira e independente de pensamento. Seu estado de solteira sugere que deve haver algo errado com ela, ou caso contrário ela já teria se casado.

Outro personagem que vale a pena a menção é o cerimonialista Dubey. De primeira, achamos que seu papel está ligado apenas ao alívio cômico da trama, contudo, sua função em Monsoon Wedding é bem maior que isso.

Nair usa o personagem para retratar as classes trabalhadoras emergentes. Dubey é frequentemente mostrado falando ao celular e provando que possui mais conhecimento que o patriarca.

Junto ao cerimolialista, a serva Alice, complementa esse arco da narrativa. Ela está presente em quase todos os eventos familiares mais importantes, mas é tão parte dos móveis que sua presença quase não é notada.

Personagens secundários formam outros núcleos do filme, principalmente, a família extensa que chega de vários cantos do mundo. Por não agirem de acordo com os costumes indianos, esses personagens são excluídos, sendo considerados estrangeiros.

Fora das características de cada um de seus personagens, Mira Nair também representa a identidade cultural de Punjabi através do uso de música e dança no filme.

A diretora sabe que, para a maioria dos espectadores ocidentais, Bollywood está associada a narrativas melodramáticas, cenários e trajes coloridos, música e dança. Assim, ela se aproveita desse estereótipo não os usando apenas para entretenimento, mas também para mostrar rituais e um pertencimento cultural.

Outro aspecto importante a ser observado é a influência estadunidense na vida dessa família devido à globalização. As meninas usam jeans, leem a revista Cosmopolitan, fumam cigarros e têm tatuagens, enquanto os meninos ouvem rap e assistem a programas de entrevistas.

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Por último, mas extremamente importante, Mira Nair faz questão de incluir em sua montagem, transições, planos de pessoas na rua, trabalhando, lutando por comida, assim como sujeira, lama e um emaranhado de cabos em postes.

Nair descortina uma parte da Índia escondida por Bollywood e pelo mundo e obriga ao espectador a levar um choque de realidade.

Salaam Bombay!, 1988

Salaam Bombay! - Café com Net

Em seu primeiro grande sucesso, Salaam Bombay!, Mira Nair é mais séria e pessimista. Sem usar atores profissionais, o longa conta a história de Krishna, um menino que é abandonado pela companhia de circo em que trabalha e vai parar na cidade de Bombaypara arrecadar 500 rúpias e poder voltar para casa.

Várias histórias paralelas são tecidas na trama: uma gira em torno de “Sweet Sixteen”, uma adolescente vítima do tráfico de mulheres; outra fala de uma prostituta do bordel, uma mãe solteira, apaixonada por um traficante de drogas local e lutando para criar sua filha, Manju; e outras envolvendo as crianças e adolescentes que vivem nas ruas da cidade.

Nair trata com empatia e acha humanidade e emoção nessas vidas perdidas.

Logo na apresentação, a cineasta nos bombardeia com características da cidade. São variações de cores, sombras e luzes que exibem um local de infinitos contrastes, bons e ruins.

Ela nos mostra uma estátua de leão, mas também mostra a criança escondida na porta, fumando um cigarro. Ela nos mostra o glamour das estrelas de cinema de Bollywood exibidas em pôsteres e também um mendigo que vive embaixo deles.

A vida de uma criança de rua, como descreve Nair, é repleta de perigos e complicações e é governada por uma necessidade avassaladora de sobrevivência.

Essa luta é mostrada em uma variedade de cenas do filme que denunciam como as crianças vivem à margem desta sociedade, retratando-as em becos escuros e escondidos.

Jogado em um mundo em que é deixado à sua própria sorte, a identidade real de Krishna fica em conflito com sua identidade ideal, pois essa não é pertencer às crianças de rua, mas ser uma criança dentro de uma família e uma casa.

O fato de o personagem principal ser criança faz dele uma de tela em branco, pronto para ser pintado de acordo com as influências do meio ao seu redor.

Para complicar ainda mais o assunto, Krishna tem uma natureza sensível, ele sente imensa empatia com os outros, o que torna a crueldade do mundo mais confusa.

O tiro final de Nair sobre Krishna é um estudo íntimo da desesperança e do desespero que o inundam com a realização do que ele fez e também do que ele se tornou.

A visão pessimista de Mira Nair é tão assustadoramente realista que Shafiq Syed, o ator que interpretou Krishna, não teve as oportunidades suficientes para superar o mundo de Bombay.

Atualmente, ele dirige uma espécie de tuk tuk para sobreviver e torce para que as crianças que atuaram em filmes do mesmo estilo de Salaam Bombay! não acabem “ficando tão pobres quanto ele”.

E aí, gostaram de conhecer um pouco de um outro mundo cinematográfico?

Comentem aqui quais países ou diretores vocês têm curiosidade em saber um pouco mais!

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Por Marcelle Souza

Marcelle Souza é redatora criativa do Café com Net, colaborando como a principal crítica de cinema da revista. Formada em cinema e jornalismo, seu ponto mais forte é comunicação e descoberta de tendências do mundo da arte.

5 comentários em “Muito além de Bollywood (sim, você leu certo: BOLLYWOOD)”

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